| Entrevista sobre drogas |
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Acadêmicas: Dr. Luiz Henrique, como podemos dizer se uma substância química é tóxica?
Dr. Luiz Henrique: Um agente tóxico é uma substância que, interagindo com o organismo, é capaz de produzir um efeito adverso, seja este uma alteração morfofuncional ou morte. Contudo, qualquer substância química tem a capacidade de produzir esses efeitos deletérios, se presente em doses ou concentrações suficientes. Paracelsus, um cientista do século XVI, afirmava que “todas as substâncias são venenos, não há uma que não seja. A diferença entre um veneno e um remédio é a dose”. Neste sentido, dizer se uma substância é mais ou menos tóxica é tarefa difícil, pois outros parâmetros são importantes para o entendimento da questão. Aqui se faz necessário o entendimento dos conceitos de toxicidade, risco e perigo tóxico, que são inerentes a cada agente químico. O importante no nosso dia-a-dia é utilizarmos qualquer substância química, seja ela um produto de limpeza, de beleza, ou um medicamento, seguindo estritamente a orientação do profissional de saúde responsável pela prescrição e/ou as orientações fornecidas pelo fabricante.
Acadêmicas: O que são e quais as consequências do uso indiscriminado das anfetaminas e remédios para emagrecer?
Dr. Luiz Henrique: Anfetaminas são substâncias simpatomiméticas, atuam predominante no sistema nervoso central, onde tem ação anorexígena - diminuidora do apetite - e estimulante por liberação de noradrenalina nas sinapses adrenérgicas. Popularmente conhecidas pelo nome de bolinhas, foram amplamente utilizadas na Segunda Guerra Mundial, com o intuito de se aumentar a coragem e reduzir a fadiga. As anfetaminas são muito populares entre pessoas que necessitam prolongar a vigília (ficarem acordadas). Antes da popularização do uso da cocaína, na década de 70, as anfetaminas eram responsáveis por cerca de 80% dos casos de uso de drogas entre adolescentes americanos. Atualmente, na Europa, é crescente o uso de metanfetamina na forma cristalizada recebendo o nome de drop ice e, semelhantemente ao crack, é fumada. As anfetaminas exercem seus efeitos tóxicos principalmente nos sistemas cardiovascular e neuropsíquico. Observa-se hipertermia, edema cerebral, hemorragias intracranianas e colapso cardiovascular, com a conseqüente falência renal. Com o uso frequente, uma pessoa pode desenvolver idéias homicidas e de auto-extermínio (suicídio), alucinações e comportamento bizarro.
Acadêmicas: Porque a preocupação das autoridades sanitárias e policiais com o crack?
Dr. Luiz Henrique: O crack é uma preparação com alto teor de cocaína que apresenta adulteração por várias substâncias, constituindo-se o que é chamado de droga de rua. Possui preço inferior ao sal refinado de cocaína que, aliado à rápida absorção e início imediato dos efeitos neurocomportamentais - cerca de 1 a 2 minutos - explicam o aumento do número de usuários em todo o mundo. O crack tem um alto poder de induzir dependência.
Acadêmicas: A maconha ou outra droga qualquer pode ser usada em tratamento médico?
Dr. Luiz Henrique: Como falei no início da entrevista, a linha de separação entre um veneno e um medicamento é muito tênue. Várias substâncias de uso clínico, essenciais na terapêutica de importantes doenças, podem se constituir em drogas de abuso com consequências desastrosas para os usuários. O uso indiscriminado de medicamentos é um importante fator de saúde pública. Nenhum medicamento deve ser usado sem a devida prescrição e orientação de profissional habilitado para tal. Assim, não é uma droga (veneno) que pode ser usada em tratamento médico e, sim, um medicamento que pode intoxicar um usuário, se não for utilizado da maneira correta.
Acadêmicas: Como posso saber se meu filho ou aluno está usando drogas?
Dr. Luiz Henrique: Mudança de comportamento. Esta é a frase chave na identificação de um usuário de drogas. Os pais e os educadores devem procurar conhecer bem seus filhos e alunos, identificando suas características individuais. O professor, sobretudo, não é responsável apenas pela transmissão de conhecimentos, mas também pela formação fenotípica do indivíduo, orientando-o em sua sociabilidade e servindo como bom exemplo de formação humana. Conhecendo bem seu filho ou aluno, você perceberá quando ele mudar de comportamento, de um estado mais alegre e social, para um estado de introspecção e alienação. Os usuários de drogas normalmente são indivíduos mais agressivos, perdem o amor próprio e a vaidade, não se preocupando mais com sua aparência física. Há diminuição no rendimento escolar e frequentes faltas não justificadas às aulas. Uso constante de blusas de mangas compridas, mesmo em tempos de calor, e óculos de sol em ambientes escuros, também podem ser indícios do uso de drogas.
Acadêmicas: Dr. Luiz, um assunto que nos interessa muito é o uso de drogas e remédios durante a gestação. Qual a preocupação que uma grávida deve ter com relação aos medicamentos?
Dr. Luiz Henrique: As drogas terapêuticas e as de abuso atuam sobre todas as fases do desenvolvimento fetal e embrionário. No início da década de 60 um tranquilizante receitado para as gestantes, denominado talidomida, causou o nascimento de milhares de crianças com malformações. Dessa época em diante, os farmacologistas e médicos passaram a se preocupar com o uso de substâncias químicas na gestação. Recém-nascidos de mães alcoólatras ou dependentes de narcóticos apresentam sintomas da síndrome de abstinência, como irritabilidade, vômitos e choro contínuo. O álcool pode causar, no embrião, microcefalia, localização das orelhas abaixo do nível normal, malformações genitais femininas e retardo mental. O uso do tabaco (cigarro) na gravidez aumenta a taxa de abortamentos e de morte neonatais - morte súbita do recém-nascido. Tetraciclinas podem levar à inibição do crescimento ósseo e hipoplasia do esmalte dentário. O ácido acetilsalicílico pode levar ao prolongamento da gestação, hemorragia fetal e fechamento intrauterino do ducto arterioso. Várias substâncias são potentes agentes teratogênicos, podendo causar o nascimento de crianças com deficiências físicas e/ou neurológicas. As primeiras doze semanas da gestação é o período mais crítico, onde o novo ser é mais susceptível à ação deletéria das drogas. Todavia, volto a repetir que a vigilância à saúde da gestante e do embrião deve ser contínua, durante toda a gestação. Nunca se deve usar um medicamento sem a prescrição e o acompanhamento de profissional habilitado para tal.
Acadêmicas: Quais as drogas que podem estar presentes no leite materno?
Dr. Luiz Henrique: A maioria dos medicamentos e drogas de abuso pode estar presente no leite materno, exercendo ação tóxica na criança. Especial atenção deve ser dada as sulfonamidas, que podem promover Kernicterius. O cloranfenicol pode provocar depressão medular. Sedativos e hipnóticos produzem letargia e sedação. A nicotina leva à insônia, vômitos, diarréia e taquicardia. O álcool também alcança o leite materno produzindo seus efeitos nos lactentes.
Acadêmicas: Dr. Luiz, por favor, faça um comentário sobre o uso de drogas no ambiente de trabalho.
Dr. Luiz Henrique: A visão empresarial do uso de drogas por funcionários, no ambiente de trabalho ou fora dele tem mudado. Outrora, se um empregado fosse pego drogado, era sumariamente demitido. Hoje em dia, os empresários se preocupam em recuperar aquele funcionário, oferecendo-lhe condições de tratamento e promovendo campanhas preventivas como palestras e exposições sobre a drogadição e suas consequências sociais e sanitárias. Infelizmente, isto ainda não é regra. As drogas que mais causam prejuízos aos empregados e às empresas são aquelas denominadas drogas lícitas, ou seja, aquelas que a sociedade não reprime o seu uso, pelo contrário até mesmo estimula: as bebidas alcoólicas e o tabaco.
Acadêmicas: O que é e quando acontece a exposição ocupacional a substâncias tóxicas?
Dr. Luiz Henrique: Com o advento da industrialização dos métodos produtivos, tornou-se o trabalhador um alvo fácil das doenças denominadas, posteriormente, “doenças do trabalho” ou “ocupacionais”. No ambiente de trabalho, o indivíduo está sujeito à exposição de diversas substâncias químicas nocivas à sua saúde, sejam elas matérias primas ou produto final da atividade industrial. Estas substâncias podem desencadear doenças graves, por vezes levando ao óbito do trabalhador. O chumbo usado em fábricas de recuperação de baterias automotivas, o mercúrio usado pelos garimpeiros, sílica e pó de mármore e vários outros produtos intoxicam o homem no exercício sagrado do trabalho. O Ministério do Trabalho do Brasil, preocupado com tais ocorrências, tem criado normas para a proteção do trabalhador. A principal é a regulamentação da instalação nas empresas do PCMSO - Programa de Controle Médico da Saúde Ocupacional e da obrigatoriedade do uso, pelos funcionários, dos chamados EPI - Equipamentos de Proteção Individual, quais sejam, luvas, máscaras, aventais, etc.
Acadêmicas: Quais exames podem ser realizados para se detectar o uso de drogas?
Dr. Luiz Henrique: A determinação e dosagem de drogas no organismo humano podem ser realizadas com uso da Cromatografia Gasosa (CG), da Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE), da Espectrofotometria de Absorção Atômica (EAA) e outras metodologias utilizando-se a urina e o sangue como amostras biológicas. Essas análises são realizadas em consonância ao anexo l da NR-7 do Ministério do Trabalho do Brasil, como controle biológico da exposição ocupacional a agentes químicos. Contudo, a pesquisa do uso de drogas de abuso, realizada pelos mesmos métodos descritos acima, é de competência da polícia técnica.
Acadêmicas: Como podemos ajudar os dependentes químicos?
Dr. Luiz Henrique: A dependência às substâncias químicas é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença psiquiátrica. Por isso, e se realmente quisermos ajudar o drogadicto, o primeiro passo é aceitá-lo como doente e não taxá-lo como irresponsável, apesar dos transtornos que ele causa à família e aos amigos. Essa é a primeira e a mais difícil das tarefas. O segundo passo é conhecer a doença e seu tratamento. Leia a respeito, pergunte aos profissionais de saúde, converse com as outras pessoas envolvidas no processo de recuperação. A melhor maneira de se vencer uma guerra, e talvez a única, é conhecer bem o inimigo para que seja possível prever e prevenir o seu ataque. Em seguida e com a participação de profissionais habilitados, ajude o drogadicto a assumir que está doente e que precisa de ajuda. Convença-o de que é importante se tratar, que sozinho ele não conseguirá se libertar da submissão à droga. Mostre a ele que a vida é muito melhor sem a dependência, que é possível ser feliz sem usar drogas, não importa a intensidade e a quantidade de problemas que a vida nos oferece. Acompanhe seu amigo ou familiar durante e após o tratamento e recuperação. A vigilância deve ser contínua, para que se evite recaídas. Você não conseguirá fazer isso sozinho. A experiência nos mostra que somente uma equipe formada pelos pais, irmãos, cônjuges, filhos, amigos e profissionais é capaz de recuperar um dependente químico. Sobretudo, esteja preparado para a luta, que é longa, difícil e pode lhe trazer decepções. Por tudo isso, como futuros pais, mães e profissionais de educação, reconheça que ninguém, nem mesmo seu filho, está imune ao flagelo das drogas e que é muito mais fácil prevenir a dependência do que recuperar o dependente. E isso se faz, principalmente, pelo exemplo e pela construção de uma família sólida, unida, que viva na cumplicidade, no entendimento, no amor dividido e temente a Deus. |





Entrevista concedida pelo Dr. Luiz Henrique Amarante a acadêmicas do Curso de Pedagogia, da Universidade do Estado de Minas Gerais.