| Modulação endógena da dor |
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A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) conceitua a dor como “uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a lesões reais ou potenciais ou descrita em termos de tais lesões”. Desta forma, a dor é sempre subjetiva, cada indivíduo aprende a utilizar esse termo de acordo com suas próprias experiências.
Prof. Dr. Luiz Henrique Amarante Farmacêutico-Bioquímico Toxicologista Ocupacional Doutor em Farmacologia
Entre as várias teorias que propuseram mecanismos diferentes para o entendimento da dor, destacou-se a Teoria da Especificidade (séc. XIX), que propunha a existência de terminações nervosas distintas para cada tipo de sensação dolorosa, em contrapartida com a Teoria do Padrão de Estímulos (séc. XX), para a qual não existiriam essas estruturas específicas na nocicepção, mas que um padrão têmporo-espacial dos estímulos conduzidos por canais sensoriais inespecíficos é que determinaria se a sensação é dolorosa ou não. Em 1965, MELZACK & WALL sugeriram que o impulso conduzido pelo sistema nervoso periférico ao sistema nervoso central (SNC) sofreria a atuação de sistemas moduladores, mesmo antes da percepção dolorosa ser evocada. Essa modulação ocorreria na substância gelatinosa do corno posterior da medula espinhal (CPME), após ativação de fibras aferentes grossas ou de sistemas centrais de controle. O balanço entre a atividade dos aferentes primários sensitivos e a modulação no CPME resultaria na sensação dolorosa. Esse estudo recebeu o nome de Teoria da Comporta e foi o marco inicial para o atual entendimento da inter-relação entre as vias ascendentes de transmissão dos impulsos nociceptivos (fibras C e Ad) e o complexo sistema endógeno de modulação da dor. A partir de então, vários estudos têm sido conduzidos com o objetivo de elucidar os mecanismos moleculares da transmissão nociceptiva e sua modulação. Atualmente, sabe-se que o mecanismo de controle central sugerido por MELZACK & WALL (1965) é uma complexa via neural descendente que se origina em diversas estruturas do SNC e, quando ativada, induz a liberação de opióides endógenos na substância gelatinosa do CPME, inibindo a transmissão do impulso nociceptivo a regiões superiores do SNC. Com efeito, no nível supra-espinhal, a estimulação elétrica do córtex pré-frontal ou da substância cinzenta periaquedutal (SCP) inibe a resposta nociceptiva em ratos não anestesiados. Os estímulos aplicados tanto no córtex quanto na SCP induzem a liberação, nesta última região, de opióides endógenos que inibem interneurônios inibitórios GABAérgicos, ativando a via descendente moduladora. Estímulos no núcleo magno da rafe e no núcleo do locus ceruleus são conduzidos ao CPME por fibras serotoninérgicas e noradrenérgicas, respectivamente, onde, na substância gelatinosa, estimulam a liberação de opióides endógenos. A liberação de opióides na substância gelatinosa pode ser induzida, ainda, por estímulos em terminais periféricos de fibras Ab, o que justifica o impulso de se comprimir uma região recém traumatizada. Outras substâncias, além dos opióides endógenos, desempenham papel importante na fisiopatologia da dor, tais como a acetilcolina, o óxido nítrico a serotonina, as catecolaminas, o ácido gama-aminobutírico, a substância P e a colecistoquinina e, possivelmente, o sistema endocanabinóide. Todos esses mediadores exercem efeito dual no processamento das informações nociceptivas, dependendo de vários fatores, como a sua concentração e o local de ação. A busca por fármacos analgésicos desprovidos de efeitos adversos no sistema nervoso central tem levado vários pesquisadores ao estudo da dor periférica, bem como sua possível modulação ainda no terminal nociceptivo primário. Estudos desenvolvidos no Laboratório da Dor e Analgesia, da Universidade Federal de Minas Gerais, têm demonstrado que fármacos agonistas de receptores opióides, doadores de NO e antiinflamatórios não-esteroidais causam antinocicepção por alterarem o estado eletrofisiológico dos nociceptores. Estes trabalhos procuram elucidar os mecanismos moleculares da antinocicepção periférica, tendo como foco de atenção uma possível ativação de canais de potássio e a participação da via do NO nesses mecanismos. Não por acaso, o conhecimento sobre a dor e a sua modulação evoluiu de maneira ímpar no século XX. Entretanto, muito ainda deve ser feito para o entendimento dos processos de dor e analgesia, o que fornecerá subsídios para o desenvolvimento de novos fármacos analgésicos, bem como para a racionalização do uso daqueles já existentes.
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