| Toxicologia do Benzeno |
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Dentre as inúmeras substâncias químicas às quais a população das grandes cidades é exposta diariamente, principalmente no desempenho de atividades ocupacionais, destaca-se o benzeno, um dos mais antigos e perigosos agentes hematotóxicos.
Prof. Dr. Luiz Henrique Amarante Farmacêutico-Bioquímico Toxicologista Ocupacional Doutor em Farmacologia
Desde que, em 1825, Michael Faraday, mais conhecido por seus estudos sobre eletricidade, isolou uma substância - o benzeno - a partir de um gás usado naquela época em iluminação, originando uma nova classe de substâncias orgânicas que recebeu o nome de compostos aromáticos, o mesmo tem sido objeto de estudos envolvendo grandes nomes da ciência, como por exemplo August Kekulé, que demonstrou ser sua fórmula molecular C6H6, em 1865. Atualmente, essa substância é exaustivamente estudada não mais devido as suas características químicas, mas sim, pelas suas implicações na saúde do trabalhador, pois a produção anual mundial é de cerca de 26 milhões de toneladas e o Brasil é responsável por, aproximadamente, 2,5 % do total produzido, o que equivale a 660 mil toneladas. Ao se exporem a esse xenobiótico, os trabalhadores correm o risco de desenvolverem sérias anomalias hematológicas, ou mesmo tornam-se vítimas de intoxicações agudas. Em ambas as situações, frequentemente, o desfecho é o óbito. O benzeno, seus homólogos e derivados são reconhecidos pela legislação brasileira como agentes patogênicos, nos termos do Anexo II - Decreto 611, de 21 de julho de 1992. Este decreto lista como atividades ocupacionais sob o risco em questão, a fabricação e o emprego de tais agentes em:
a) instalações petroquímicas onde se produz benzeno; b) indústria química ou de laboratório; c) produção de cola sintética; d) usuários de cola sintética na fabricação de calçados, artigos de couro ou borracha e móveis; e) produção de tintas; f) impressores (especialmente na fotogravura ); g) pintura à pistola; h) soldagem. O uso do benzeno como solvente industrial vem diminuindo em virtude da proibição contida na portaria número 3, de 28 de abril de 82, do Ministério do Trabalho do Brasil. Entretanto, este hidrocarboneto ainda representa risco ocupacional para milhares de indivíduos. Sua maior utilização é na indústria petroquímica, que consome cerca de 90 % da produção brasileira. Neste setor industrial, a exposição ocupacional é devida, principalmente, as etapas de transferência e estocagem dos produtos, amostragem para o controle de qualidade e paradas a para manutenção das unidades de refinaria. É matéria prima na produção de etilbenzeno, estireno, poliestireno, ciclo hexano, nitrobenzeno e outros. Mas não são apenas os operários das grandes cidades que estão sujeitos às suas agressões. O benzeno, juntamente com outros solventes, está presente nas formulações de vários pesticidas, expondo o homem do campo e sua família ao risco de contaminação ocupacional e ambiental. Os fumantes, mesmo que não se exponham ocupacionalmente ao benzeno, também podem desenvolver patologias a ele atribuídas. Está bem demonstrado um aumento do risco de desenvolvimento de leucemia mielóide em fumantes. O teor de benzeno isolado da fase gasosa do cigarro é de 50 microgramas por unidade de cigarro, o que equivale a 50 ppm. Sendo um dos solventes mais utilizados no mundo atual, cumpre-se avaliar seu potencial tóxico, o qual é conhecido há mais de um século. Os primeiros relatos sobre a toxicidade do benzeno datam de 1897, quando estudos já alertavam que exposições repetidas levam, em longo prazo, a alterações na formação do sangue de trabalhadores a ele expostos, nos quais se observou quadros de anemia e leucopenia. Em 1916, foi descrito o óbito de duas meninas expostas ocupacionalmente a altas concentrações de benzeno, durante quatro a cinco meses, que apresentaram reduções drásticas na contagem de glóbulos brancos e significativa redução do número de hemácias. Em 1928, DELORE & BORGOMANO associam pela primeira vez leucemia com exposição ao benzeno, em um trabalhador que desenvolveu leucemia linfóide aguda após apenas cinco anos de exposição. Publicações da década de 30 citam um estudo que se tornou clássico: 84 trabalhadores expostos ao benzeno, em concentrações que variavam de 75 ppm a cerca de 1.300 ppm, apresentaram policitemia ou anemia, leucopenia ou leucocitose, sugestivas de leucemia em dois casos, eosinofilia, megalocitose ou macrocitose e a presença de células sanguíneas imaturas. Estudos recentes realizados em grupos de 44 trabalhadores expostos e 19 não expostos, na mesma indústria petroquímica, demonstraram ser o benzeno responsável por leucemias agudas, utilizando-se Polymerase Chain Reaction - PCR seguida por hibridação Oligonucleotídica - ONH, para a detecção de mutação em células proto-oncogênica. Até pouco tempo, casos de leucemias linfóides agudas eram incomuns na região ao sul do Saara africano. Entretanto, em 1993 ficou demonstrado um aumento da incidência desta hemopatia em crianças, que alerta sobre a possibilidade de, num futuro próximo, também vir a aumentar os casos de leucemias mielóides agudas em jovens, devido a exposições ocupacionais e ambientais ao benzeno e outros poluentes, bem como o aumento no consumo de cigarros. O professor René Mendes em sua obra: PATOLOGIA DO TRABALHO,1995, cita várias publicações de pesquisadores brasileiros sobre os efeitos da exposição ocupacional ao benzeno, principalmente a partir de casuística, quais sejam: Cillo, 1966; Oliveira, 1970; Morrone & Andrade, 1974; Ruiz, 1989; Augusto, 1991 e, através de estudos epidemiológicos em grupos ocupacionais de risco: Wakamatsu, Fernicola e cols., 1976; Cosipa, 1985; Fundação José Silveira, 1992. Este primeiro composto aromático, isolado e identificado por Faraday, suscitou vários estudos e publicações ao longo do tempo, quer pela sua estrutura química complexa e utilidade industrial, quer pelo seu potencial toxicológico, que o caracteriza como um dos principais solventes causadores de intoxicações ocupacionais no mundo atual.
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